Que histórias seus pés contam?

CARTOGRAFIA DO MOVIMENTO

MAPA COMO RELATO

Ao esquadrinharem o território com seus passos, diariamente, aceitam construir registros de suas andanças com mapas, histórias, sonoridades, imagens, inventários. Trata-se de um atlas forçosamente inacabado e aberto a novas incorporações: novas singularidades - invisíveis nos mapas oficiais -, que se dão nas relações sutis entre pessoas, edifícios, bairros, hábitos e saberes. Ideia movente de percepção, experiência e transformação do espaço. Condição geográfica de portabilidade. Noção de espaço a partir da sua riqueza de pontos de vista, sensibilidades, temporalidades e afetos.  

Para cada um deles corresponderia um mapa, uma rota de percepções e ações que singularizam a experiência urbana. São sujeitos cartográficos que acrescentam à noção de sujeito-com-uma-história de sujeito-com-uma-geografia. 


A cidade, vista assim, é discretamente apropriada, todos os dias, pelos vendedores ambulantes, em especial por aqueles que apresentam saberes, representam culturas e constituem historicamente a paisagem urbana que conhecemos. Com as suas sonoridades características e com o imaginário de seus modos de fazer e conviver, põem em prática sociabilidades muitas vezes esquecidas ou abandonadas pelo ímpeto do progresso. Produzem um espaço efêmero que testemunha a diversidade quanto a tempos e velocidades, práticas e tecnologias e relações interpessoais - um espaço que escapa ao esforço de homogeneização, regularização e massificação. 


Sujeitos ambulantes realizam suas atividades em movimento. Este movimento é qualificado numa temporalidade que não é a da velocidade, mas da lentidão. 

O mapa oferece-se como campo narrativo para a complexa experiência do localizar-se. 

Mapa-como-relato. Mapa-de-um-relato-só. 
Mapa como relato: espaço inventário, espaço inventado. A dialética espaço inventário e espaço inventado testemunha a operação da ciência cartográfica: expedições e observações compilam e batizam cada lugar e cada forma existente; técnicas e poéticas e representação se ocupam em criar mundos. O inventário geográfico encontra uma visibilidade possível no mapa. 

O mapa medieval era um modo visual e escrever a história do mundo. 
O mapa de então é um desenho aberto que é, lentamente, completado - no desejo do relato. 

Reterritorializar o mapa, conferindo-lhe a forma de manifesto. Habitar o mapa. 

Eles criam geografias. Quando esse ideia é incorporada à prática, denomina-se "geografia experimental". Artistas sempre criaram geografias, se entendermos a produção cultural é também uma prática espacial. A geografia portátil é a compreensão da paisagem como construção crítica e o geografia como prática cultural. Se o artista dispositivo de atuação é um "[...] personagem em contínuo deslocamento através de práticas, saberes e discursos", ele é em si mesmo um agente de criação de geografias portáteis. 

Os diários de bordo ilustrados, a narração de viagem e a confecção de mapas aparecem como formas de discurso sobre o espaço tão eloquentes como as esculturas in situ. Num momento posterior, as mesmas paisagens distantes são inseridas no álbum de imagens culturais por intermédio da museificação da experiência do artista. 

O artista observa, caminha, peregrina, mapeia e constrói uma prática discursiva que tem a possibilidade de se transformar numa narrativa da interação e da troca. 

Mapas a partir da vivência particular.
A leitura que fazemos dos mapas de Vermeer não é a leitura de localização e navegação, mas a leitura de deslocamento. Sendo assim, o que ocorre quando o mapa se transforma em coisa-em-ação-, para além da sua função instrumental de ser legível? Aí a sua propriedade comunicacional desdobra-se de leitura cartográfica para uma densidade perceptiva ou uma prática espacial. Como manifesto particular, o mapa pode ser reinstrumentalizado como manual, dispositivo do relato novo, guia para navegações cotidianas que vão além do seu lugar-matriz. 

Mapear é instrumentalizar o mundo e traçar caminhos que são frequentemente desobedecidos. Mapa inventário. Geografia da experiência. 

Todo mapa é um código. Remete a um mundo exaustivamente maior e subitamente alcançável. Homens e mulheres tocam o mundo, conectados com outros espaços-tempo: através dos olhos, das mãos, do compasso. 

Leio os seus mapas não para localizar-me, mas para extraviar-me. Para me lançar, emersa, para fora da casa. 

Para os geógrafos, a cartografia - diferentemente do mapa: representação de um todo estático - é um desenho que acompanha e se faz ao mesmo tempo que os movimentos de transformação da paisagem. Paisagens psicossociais também são cartografáveis. A cartografia, nesse caso, acompanha e se faz ao mesmo tempo que que o desmanchamento de certos mundos - sua perda de sentido - e a formação de outros: mundos que se criam para expressar afetos contemporâneos, em relação aos quais os universos vigentes tornaram-se obsoletos.

Nova escritura do sistema de signos geográficos. Uma geografia relacional pressupõe a atuação do corpo no território e a criação de uma espacialidade portátil. É o corpo-a-corpo do espaço, as micropolíticas do lugar, a erupção de narrativas esboçando novos mapas possíveis da terra infirma