Que histórias seus pés contam?

CHÃO QUE PISO

POR QUE ANDAR POR AÍ?

O Projeto Chão Urbano surgiu a partir do interesse em se registrar imagens fotográficas de ambulantes, que têm como atividade profissional a comercialização de produtos que são revendidos, durante o verão, ao longo da costa litorânea capixaba, por meio de um movimento que envolve a ação de percorrer a pé, as areias das praias, como ato inaugural dessa ocupação. Aliado ao registro fotográfico pretende-se interagir diretamente com esses personagens, a partir da escuta de suas histórias de vida, bem como a respeito das motivações que intervêm a movê-los nesses percursos, hipoteticamente entendidos, como fonte de trabalho, opção de vida ou alternativa de sobrevivência econômica. Nesse sentido propõem-se a realizar um percurso, visando à perspectiva de uma interseção entre a linguagem visual e os elementos da história oral, considerando os aspectos pessoais, espaciais e sociais que fundamentam o ofício desses andantes. Parte da rede de significados que se pretende observar nesse projeto tem destaque em elementos referendados à questão da história, memória, cotidiano, cultura, temporalidade, espaço, identidade, laços afetivos, relacionamento com os clientes, sonhos, alegrias, dificuldades e frustrações. Recorrer à história como referencial teórico e metodológico, significa ter como pano de fundo ao registro de imagens, narrativas legitimadas, a partir do cotidiano daqueles que são os protagonistas de sua própria existência, numa realidade social, culturalmente constituída.


QUEM ANDA POR AÍ?

Caminhar. Dar passos. Mover-se. Andar a trabalhar. Do ponto de vista biológico, o corpo humano é naturalmente impulsionado ao ato de movimentar-se. A cultura e os aspectos sociais fortalecem a sensação de que, em movimento, têm-se diante de si, a perspectiva de uma vida humana com direito à cidadania e a provisão da satisfação das necessidades básicas de sobrevivência. A terminologia ambulante aplica-se ao que está andando ou numa posição de andamento; que se move ou é capaz de ser movido de um lugar a outro. No caso dos personagens que buscamos refere-se aos indivíduos que percorrem os lugares para oferecer suas mercadorias e fazer negócios. Outrora denominados de mascates e caixeiros-viajantes, os ambulantes parecem apresentar em comum com aqueles, a adoção de um ofício que se realiza pela via da reconfiguração do espaço de trabalho. 


REGISTROS DO PERCURSO | ESTÃO TODOS EM TRÂNSITO

Quilometragem percorrida de carro e a pé; como chegar (guia de acesso aos lugares visitados); recursos materiais utilizados; condições climáticas; diário de bordo.


RECURSOS MATERIAIS

Máquina fotográfica
Gravador
Bloco e canetas


CAMINHARAM JUNTO CONOSCO

Nome e ofício de todas as pessoas que colaboraram com a realização do projeto. 


PRÓLOGO

O Projeto Chão Urbano funde a estratégia do retrato com a cartografia. O retrato, sem perder as suas inerentes atribuições de identidade, é posto a operar como um atlas, instância cuja função é o registro espacial. Nele o ambulante não é uma abstração ou idealização nem é o sujeito anônimo ou o homem: ele tem nome, endereço e itinerários específicos, é possuidor de um "modo de fazer" particular e de um conhecimento único. Um atlas que não aspira a sua completude ou à taxinomia, mas que espera produzir registros de uma espacialidade fugidia e, ao mesmo tempo, propor a sua construção como um processo contínuo, pois trata-se de um atlas que podemos acrescentar outros protagonistas subitamente reconhecidos na nossa experiência na cidade. Como em todo atlas, encontraremos mapas com rotas, pontos de parada e referências espaciais. Mas os mapas não pretendem funcionar como imagens isoladas e autônomas na tarefa complexa da localização, são um registro gráfico das narrativas imprevisíveis dos cartógrafos ambulantes. O Atlas Ambulante é formado pelas histórias de Antônio, Osmar, Robson, Jefferson, Agnaldo e Marlene, por suas cartografias singulares (Mapas) e também por série de paisagens registradas por eles através de câmeras que portaram durante certo período (Itinerários), um inventário dos seus instrumentos de trabalho (Equipamentos), uma colação em escala real de todos os produtos que oferecem através do seu ofício (Produtos), bem como as partituras da paisagem sonora que produzem (Partituras) e uma série de cinco filmes com os seus relatos (Depoimentos). Percurso diário a pé. Itinerários: mobilidade previsível x mobilidade imprevisível. Ponto de serviço. Aspectos relevantes. Interesses de seus itinerários (olhar sobre a cidade). Permissão de uso da imagem. EQUIPAMENTOS: Os equipamentos utilizados pelos vendedores ambulantes não são registrados para além do uso cotidiano e da memória que cada um de nós guarda deles. São objetos fabricados sem projeto de modo artesanal, em peças únicas, ou são modificações personalizadas de ferramentas e outros produtos industriais. Daí a ideia de compor um inventário que comportasse os projetos retroativos de todos esses equipamentos, as informações técnicas e as engenhosidades práticas. Uma matraca. Um projeto de tambor na medida de um tabuleiro grande. Um projeto espanhol de máquina de amolar. Uma bandeja com capacidade para centenas de pirulitos e local para publicidade. Uma piteira para 150 palitos de algodão doce. Exemplo: buzinas que se transformaram em cornetas. Artefatos técnicos que utilizam facilitar suas atividades. PRODUTOS: VITRINES-INVENTÁRIO: O Atlas inclui receitas dos produtos alimentícios comercializados (ingredientes e modo de preparo) e fotos dos mesmos. No caso de serviços, inclui os ingredientes e fotografias. PARTITURAS: Muitas vezes o ambulante é uma presença sonora. No processo cartográfico do Atlas Ambulante, imaginamos transportar o anúncio sonoro dos vendedores ambulantes para o campo culto da música, explorando as possibilidades de representação através de códigos simultaneamente visuais e musicais. Dentro da noção de localização como reconhecimento de si e dos outros no espaço ao seu redor, os sons dos ambulantes são entendidos como elementos da paisagem sonora que integra, há séculos, a história cultural da cidade. O músico Frederico Pessoa produziu partituras para os sons dos instrumentos e para as vozes dos ambulantes que utilizam tal recurso no seu trabalho. Antônio bate a matraca, como tantos outros vendedores, mas de um modo singular - distinto, inclusive, dos seus irmãos que também vendem o biju fabricado na mesma empresa familiar. Osmar toca uma gaita e diz que ela, toda remendada, é o último exemplar de um modelo que não se fabrica mais. Logo em seguida, ele canta afinadíssimo o seu jingle, cuja letra foi adaptada da versão paulista que lhe deu origem. Robson trabalha com o silêncio, sem utilizar nenhum instrumento  sonoro: os tipos e os preços das mercadorias estão estampados em cores no próprio tabuleiro que ele fez. Discreto, chega perto das pessoas nas mesas de bar e anuncia o "putcha-putcha" num verso rápido e divertido, finalizando com vários sorrisos dele e dos possíveis clientes. Jefferson tem dois tipos de corneta que toca soprando, pois nenhuma tem mais a buzina que eram originalmente: uma de 10 cm diâmetro e outra de 5 cm de diâmetro. Ele conta que corneta menor emite um som que incomoda de modo particular os cachorros, que avisam instantaneamente aos donos sobre a sua presença. Marlene e Agnaldo não sinalizam a sua passagem com sons, e sim com a ocupação temporárias de um micro território. [...] A partitura de Robson, vendedor de pirulitos, 'pucha-putcha' que permite que vejamos as ondulações tonais de sua voz ao emitir sua fala Robson não tem um 'canto' como Osmar ou um objeto que emita sons, como Antônio de Jefferson. Sua fala, com uma entonação especial e um texto por ele criado, é sua marca. DEPOIMENTOS: Nos depoimentos em vídeo, os ambulantes falam dos seus modos artesanais de fazer e dos seus hábitos de caminhar. Eles rememoram e traduzem as suas histórias e os seus percursos diários nesse novo lugar de pausa que a filmagem propõe. O movimento deles é subitamente destinado ao tempo das palavras. Assim, os cinco vídeos são estáticos e reflexivos, em contraponto ao fluxo da presença deles na cidade. Os relatos que aparecem nos vídeos a seguir não constituem um mero anexo ou uma outra versão para informações redundantes. Em vez disso, os vídeos são o último capítulo que compõe o Atlas Ambulante, um capítulo numa mídia diferente das demais e com particularidade de que nele, só a voz dos ambulantes aparece. Eles se apresentam, contam a história do seu ofício e imaginam cenários futuros. As imagens trazem uma série de cinco vídeo retratos captados sobre fundos pictóricos da cidade: muros ou topografias que fazem parte da paisagem dos bairros percorridos e que, agora, revelam essas figuras em trânsito e, ao mesmo tempo, são cartografados por elas. 

Transformando o próprio artista em um objeto do processo.